O desembargador Magid Nauef Láuar, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), relator da decisão que absolveu um homem de 35 anos acusado de estuprar uma menina de 12 anos, passou a ser alvo de acusações de abuso divulgadas nas redes sociais por duas pessoas que se apresentam como seu sobrinho e ex-funcionária. As manifestações surgiram após a repercussão do julgamento que anulou a condenação de primeira instância imposta ao réu.
A decisão foi proferida pela 9ª Câmara Criminal do TJMG, que, por maioria, inocentou o homem previamente condenado a nove anos e quatro meses de prisão por estupro de vulnerável. No entendimento apresentado no voto relatado por Láuar, teria havido reconhecimento, por parte da vítima, da figura de um “marido”, além da indicação de um “vínculo afetivo consensual” entre o acusado e a criança.
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Com a ampla repercussão do julgamento, duas pessoas passaram a citar o magistrado em publicações nas redes sociais. Uma delas é Saulo Lauar, que se apresenta como sobrinho do desembargador e afirma que o episódio relatado por ele teria ocorrido quando tinha 14 anos e trabalhava para o magistrado. Ele confirmou a denuncia para o jornal da Band.
“Ele tentou abusar s*xualm*nte de mim quando eu tinha 14 anos de idade. Quando eu trabalhava pra ele. O ato só não se consumou porque eu fugi. Infelizmente eu não tenho vontade de desejar bom dia, porque estou sem dormir direito desde a notícia dessa absolvição do pedófilo. Estou revivendo uma dor pessoal que guardei por todos esses anos e que, apesar de todo tratamento psicológico que ainda faço, a ferida se abriu novamente. Meu corpo está tenso, dolorido e a garganta entalada. Cada detalhe do fato retomou seu lugar, como se tivesse acontecido ontem”, disse Saulo em seu relato.
“Eu pensei na dor que isso poderia causar em vocês e até nele, na mãe dele, na esposa e nos filhos. Mas a dor da menina de 12 anos e de tantas outras crianças é mais forte. É mais importante nesse contexto. Eu nutria por ele admiração profissional e um afeto quase paternal. Minha mãe confiou a ele um filho adolescente, sonhador e fragilizado. Essa decisão mostrou a face que só eu conheci e, mesmo assim, quis esconder e tentar apagar. Eu lamento mais essa dor da exposição, mas ela vem como um pedido: protejam-se, falem alto sobre os seus limites e dores, denunciem. Quando nos calamos, a dor cresce e se espalha, as feridas não cicatrizam e pode ser tarde demais… O que resta em nós é a necessidade de lutar pra encontrar um pouco de amor, paz e alegria de viver, como me ensinou minha Vó Tê!”, completou.
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Outra manifestação foi publicada por Cassia Claudia Fernandes, uma usuária identificada como ex-funcionária da família, que afirmou ter sido vítima do desembargador em período anterior. “Saulo, eu acredito em você. Ler seu relato não só doeu me fez criar coragem. Porque eu também fui vítima dessa mesma pessoa, há muitos anos atrás. Na época eu e minha irmã trabalhávamos para a família dele, eu trabalhava para a irmã e a minha irmã para a mãe. Eu era nova, confiava naquele lugar e guardei tudo em silêncio por muito tempo. A gente tenta seguir a vida, fingir que esqueceu, mas não esquece. Fica guardado na memória, no corpo e na alma. Seu desabafo trouxe à tona lembranças difíceis, mas também me fez perceber que o silêncio só protege quem errou. Hoje eu me recuso a continuar calada. Não é fácil falar, mas é necessário. Você não está sozinho. E talvez ainda existam outras pessoas que também precisem de coragem para falar”, escreveu no comentário.

