
Destroços do voo 2283 da Voepass em Vinhedo (SP) após a queda (Foto: Instagram)
Fátima Albuquerque, presidente da Associação de Familiares das Vítimas da Voepass, perdeu a única filha no dia 9 de agosto de 2024. A médica Arianne Risso, de 34 anos, estava a bordo do voo 2283, que despencou em Vinhedo (SP) há quase dois anos. Nesta quinta-feira (6), Fátima foi à Superintendência da Polícia Federal em São Paulo para acompanhar a apresentação do relatório policial sobre o acidente. “Eu digo desde o primeiro momento que eles mataram a minha filha”, declarou ela ao Estadão.
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A Polícia Federal indiciou 16 pessoas, em sua maioria por atentado à segurança no transporte aéreo. De acordo com o inquérito, funcionários da Voepass, de diretores a comandantes, adotavam uma prática sistemática de não registrar oficialmente defeitos nos sistemas das aeronaves. Entre esses problemas, o mau funcionamento do sistema de degelo durante o trajeto Cascavel (PR)–Guarulhos (SP) teria agravado as condições que levaram à queda do ATR.
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“Havia ali, naquela empresa, um modus operandi que induzia os colaboradores a cometer crimes”, afirma Fátima. “Eles sabiam que faziam uma gambiarra, burlavam a fiscalização e puseram em risco a vida de pessoas inocentes.” Para ela, o indiciamento traz a expectativa de responsabilização.
O relatório será remetido ao Ministério Público Federal, que poderá requerer a prisão dos envolvidos. Uma medida cautelar determina que os 16 investigados fiquem proibidos de deixar o território nacional enquanto o processo estiver em curso.
Bianca Feller, advogada e sobrinha de uma das vítimas, classifica a perda como “inexplicável” por se tratar de uma tragédia que “poderia ter sido evitada”. “Ele poderia estar aqui hoje. Tudo isso seria evitável se a empresa tivesse condições adequadas de voo. Foi um crime, não um acidente; um verdadeiro crime aéreo”, afirma.
A divulgação do relatório na mesma semana em que o acidente completa dois anos ganha simbolismo, segundo os familiares. “Encerramos uma etapa, mas iniciamos outra ainda mais importante: a luta por justiça. É preciso que venha a denúncia conforme o indiciamento, o processo criminal e a condenação, para que os culpados sejam punidos conforme a lei”, diz o texto conjunto da Associação.
Para Adriana Ibba, mãe da passageira mais jovem — uma menina de 3 anos que seguia com o pai do Paraná a São Paulo —, os indícios de crime apresentados pela PF foram chocantes. “Eu já suspeitava de muitas falhas, mas nesse nível, não. Estão falando em fingir fazer manutenção de aeronave. É algo inaceitável e me surpreendeu profundamente.”
Em nota, a Voepass afirma que a segurança operacional sempre foi prioridade, observando todos os protocolos de manutenção e capacitação de tripulações estabelecidos pela Anac. Segundo a empresa, detentora da certificação IOSA desde 2012, os pilotos receberam treinamento e foram orientados a seguir procedimentos de combate ao gelo. A companhia informa ter colaborado integralmente com Cenipa e Polícia Federal, fornecendo documentos, diários de bordo e relatórios técnicos. A Voepass aguarda os desdobramentos processuais e diz que exercerá seu direito de defesa nos termos da lei, reiterando solidariedade às famílias das vítimas.








