IA pode reviver o erro mais prolongado da Revolução Industrial

Posted by

–


Circuito de microchip simboliza o poder transformador da inteligência artificial na economia global. (Foto: Instagram)

A inteligência artificial vem redesenhando as regras da economia global e, para muitos analistas, não é apenas um tema de pesquisa, mas sim uma força revolucionária capaz de transformar metodologias e mercados. No entanto, apesar do frenesi de investimentos em IA, permanece em aberto uma questão fundamental: quais serão os impactos macroeconômicos dessa tecnologia e até que ponto ela pode repetir o erro histórico da Revolução Industrial?

++ Sistema de IA revela como pessoas comuns estão criando novas fontes de renda online

Para avaliar o potencial da IA, é essencial considerar a produtividade. Economistas recorrem ao Paradoxo de Solow — que destaca a aparente ausência de ganhos de produtividade após a difusão dos computadores — e aplicam essa mesma lógica aos atuais avanços em IA. A transição de um salto tecnológico para um aumento mensurável na produção envolve desafios de medição, ajustes estruturais e defasagens temporais.

++ Madeleine McCann, desaparecida em 2007, aparece mencionada nos arquivos do caso Epstein

Caso a IA cumpra a promessa de elevar a eficiência, o mercado de trabalho e a distribuição de renda sofrerão profundas mudanças. Funções antes consideradas à prova de automação já estão vulneráveis, e embora surjam novas ocupações, o efeito mais marcante talvez seja o aprofundamento da divergência entre os retornos do capital e os retornos do trabalho.

Essa perspectiva nos remete à chamada Pausa de Engels, fenômeno que se seguiu à Primeira Revolução Industrial, quando, apesar dos expressivos ganhos na produção industrial e no PIB per capita, os salários reais da classe trabalhadora permaneceram estagnados por quase oito décadas. As ideias de Karl Marx, elaboradas em Bruxelas entre 1847 e 1848, surgiram justamente nesse contexto de insatisfação social.

Hoje, se combinarmos os avanços de produtividade impulsionados pela IA com o risco de aumento da desigualdade, poderemos enfrentar um desequilíbrio crônico: uma oferta em forte expansão e uma demanda estruturalmente fraca. A China, por exemplo, já lida com esse descompasso entre capacidade produtiva elevada e consumo interno insuficiente, o que pode ser agravado pela adoção rápida de tecnologias de IA.

Esse cenário desafia a premissa clássica de que os recursos são escassos e os desejos humanos são infinitos. Se a IA inaugurar uma era de abundância material sem precedentes, porém reduzir o poder de compra dos consumidores, será necessário repensar completamente o modelo de gestão econômica para assegurar a sincronização entre produção e consumo.

Para evitar uma nova Pausa de Engels, o setor privado deve direcionar inovações em IA de modo a criar empregos e ampliar as capacidades humanas, e não apenas substituir a força de trabalho. Paralelamente, as políticas públicas precisarão evoluir além dos instrumentos tradicionais de estímulo à demanda cíclica, adotando estratégias proativas e possivelmente não ortodoxas para garantir que os benefícios da revolução da IA sejam amplamente distribuídos.

A lição histórica nos mostra que levar 80 anos para corrigir disparidades de renda é um luxo inaceitável. Munidos do aprendizado sobre as crises distributivas da era industrial, devemos agir rapidamente para evitar que a IA reproduza o mesmo erro macroeconômico que marcou o passado.