
Pesquisa da Unicamp mostra como desigualdades de acesso e o poder das plataformas influenciaram a busca por informação durante a pandemia de covid-19 no Brasil. (Foto: Instagram)
Em meio ao excesso e à falta de informação, rolar o feed não significa necessariamente estar informado. A pandemia de covid-19 tornou evidente que o acesso à informação não diz respeito apenas à qualidade do debate público: pode afetar a participação social e até a sobrevivência. Informar-se é um direito, tema da pesquisa recém-publicada pela Unicamp Crises entrelaçadas em um Brasil pandêmico: como se configura a permacrise no Brasil durante a Covid-19.
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A pesquisa reconstruiu a busca por informações em veículos jornalísticos e de divulgação científica durante o primeiro ano da pandemia no Brasil. O levantamento mostrou que diferentes crises se entrelaçaram e reforçaram umas às outras, criando uma instabilidade persistente chamada de Permacrise. Como debate Sueli Carneiro, embora a pandemia tenha sido global, seus efeitos foram vividos de formas distintas. Em 2021, 47% dos acessos à internet no país eram feitos por celulares com planos pré-pagos, o que condicionava a busca por notícias e orientações à capacidade de pagar pelos dados móveis. Além disso, 602 veículos de comunicação fecharam no Brasil nos últimos 30 anos; 61 deles encerraram as atividades em 2020.
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A expansão das plataformas digitais alimentou a expectativa de uma comunicação em rede, com informações circulando entre diferentes pessoas e em várias direções. Essa promessa parecia se opor ao modelo “unidirecional, linear e autoritário” descrito por Jesús Martín-Barbero, no qual poucas instituições produziam e distribuíam conteúdo para muitos. As plataformas abriram novos espaços de produção e acesso, mas não acabaram com a centralização: deslocaram seus mecanismos e tornaram menos visível quem seleciona e organiza o que ganha destaque.
A circulação passou a ser fortemente mediada por plataformas que, por meio de regras, interesses comerciais e sistemas algorítmicos, influenciam a visibilidade dos conteúdos e as condições para que sejam considerados relevantes ou confiáveis. Essa subversão aparenta transformar o modelo, mas transfere aos indivíduos a responsabilidade pela informação, enquanto sustenta uma promessa de alcance que nem sempre pode ser verificada. O ambiente parece aberto e interativo, mas continua marcado por interesses comerciais e por uma lógica centralizadora.
A mediação algorítmica pode ampliar desigualdades, reproduzir vieses e gerar efeitos discriminatórios, como já discutiu Nina da Hora. As plataformas não apenas organizam o fluxo de informações: também interferem nas condições de circulação dos discursos. Quando poucas empresas sediadas fora do Brasil concentram esse poder, decisões que afetam o ambiente informacional são tomadas longe do debate público e das normas construídas democraticamente no país.
Por isso, a qualidade desse ambiente não pode ser tratada apenas como responsabilidade individual. O direito à informação depende de que conteúdos alcancem as pessoas, possam ser comparados com outras fontes, permaneçam disponíveis e sejam compreendidos em contexto. O fechamento de veículos, a redução de equipes e a diminuição da cobertura local criam desertos de notícias, onde a produção profissional de informação de interesse público se torna limitada ou inexistente.
Defender a informação pública e brasileira não significa apoiar somente veículos tradicionais. Universidades, instituições científicas, organizações da sociedade civil, projetos independentes e iniciativas comunitárias também contribuem para um ecossistema plural, que amplia o acesso, a verificação e a contextualização. A democracia depende das condições informacionais em que as escolhas são formadas: informar-se envolve encontrar conteúdos, conferir sua origem, compreender seu contexto e confrontar diferentes fontes. O texto foi publicado originalmente em 15 de outubro de 2026.








