
Revisão sistemática publicada na revista The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health concluiu que a maioria dos procedimentos complementares à fertilização in vitro não tem benefício comprovado para aumentar as chances de nascimento. Especialista recomenda avaliar evidências, riscos e custos antes de adotá-los. (Foto: Instagram)
Adicionar procedimentos à fertilização in vitro (FIV) não necessariamente aumenta a possibilidade de engravidar ou ter um bebê. Essa é a conclusão de uma revisão sistemática com meta-análise publicada em julho na revista The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health.
O estudo examinou 10 procedimentos e estratégias complementares, conhecidos como add-ons. Para a maioria, os pesquisadores não encontraram benefícios ou consideraram as evidências insuficientes ou inconclusivas. Três apresentaram sinais de benefício em certos desfechos, mas com evidências limitadas. O ginecologista Denis Schapira Wajman, especialista em reprodução humana do Einstein Hospital Israelita, afirma que muitas dessas técnicas entraram na prática antes de haver comprovação de que aumentam a chance de nascimento. “Em reprodução assistida, fazer mais não significa necessariamente fazer melhor”.
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As técnicas têm finalidades variadas: algumas buscam aprimorar a seleção ou a qualidade dos embriões; outras tentam favorecer a implantação no útero ou interferir em fatores imunológicos. O PGT-A analisa os cromossomos de células retiradas do embrião antes da transferência. A estratégia procura ajudar na escolha embrionária e, entre outros objetivos, reduzir abortamentos e o número de transferências até a gravidez.
O teste de receptividade endometrial avalia o tecido que reveste o útero para estimar quando estaria mais receptivo à implantação. Já o endometrial scratching provoca uma pequena lesão nesse tecido, na tentativa de estimular sua reparação; atualmente, não é recomendado como procedimento de rotina. O PRP intrauterino, ainda experimental, aplica no útero plasma rico em plaquetas obtido do sangue da paciente. Uma técnica semelhante pode ser feita nos ovários, com a intenção de melhorar sua função ou resposta à estimulação.
Outros métodos partem de hipóteses sobre imunidade e implantação. Intralipídios são uma emulsão de gordura administrada pela veia para, supostamente, interferir em mecanismos imunológicos, mas não são tratamento de rotina. Corticoides também podem ser usados com a intenção de modificar a resposta imune durante a implantação. A acupuntura, por sua vez, busca aumentar o fluxo sanguíneo aos órgãos reprodutivos, estimular hormônios ligados à fertilidade e reduzir o estresse. Não há evidência consistente de que eleve a taxa de nascidos vivos na FIV.
O PICSI procura selecionar espermatozoides pela capacidade de ligação ao ácido hialurônico, característica que poderia indicar maturidade para fertilizar o óvulo. O EmbryoGlue é um meio de transferência embrionária enriquecido com essa substância, aplicado no momento do procedimento para tentar aumentar a implantação. Na análise, os dois métodos e o endometrial scratching mostraram sinais de benefício em alguns desfechos, como possível aumento de nascidos vivos e redução de abortamentos. Os autores, porém, consideraram fracas as evidências e insuficientes para recomendar o uso rotineiro.
Wajman também alerta para os custos: a FIV exige alto investimento, e os procedimentos adicionais podem elevar o valor sem benefício comprovado, além de aumentar o peso financeiro e emocional do casal. A escolha deve considerar a indicação individual, a qualidade das evidências, os riscos, os custos e as alternativas, sobretudo se há melhora em resultados relevantes, como o nascimento do bebê. O casal pode perguntar se a técnica é recomendada por sociedades científicas ou ainda é experimental. “A pergunta não deveria ser ‘o que mais podemos acrescentar?’, mas sim ‘o que realmente pode trazer benefício para este caso específico?’”, afirma o especialista. O material foi publicado originalmente pela Agência Einstein.








