
André Janones mobilizou milhões de apoiadores nas redes durante a campanha de Lula. (Foto: Instagram)
Antes mesmo da confirmação do resultado, André Janones já havia enviado uma “última missão” aos seguidores do Exército do Lula, canal criado no WhatsApp para mobilizar apoiadores. Eles deveriam resgatar publicações em que o deputado previra a vitória e a diferença de votos. A estratégia também refletia duas marcas de sua atuação: organizar a militância de Lula e reivindicar reconhecimento por seu papel na campanha.
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O canal alcançou cerca de 10,8 milhões de seguidores, que recebiam textos, áudios, vídeos e orientações para compartilhar conteúdos, promover hashtags e chamar outras pessoas. Com 99,95% das seções apuradas, Luiz Inácio Lula da Silva tinha 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% de Flávio Bolsonaro, segundo o TSE. Após a vitória, Lula chamou Janones de “nosso general” e agradeceu por elevar a moral da campanha.
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A mobilização cresceu depois do primeiro turno e também acompanhou a expansão do perfil pessoal do deputado. Segundo o SocialBlade, o Instagram de Janones passou de 2.781.320 seguidores para 6.876.228 em 23 de outubro: um acréscimo de 4.094.908, ou 147,2%. Aos 42 anos, ele havia ganhado projeção durante a greve dos caminhoneiros de 2018 e ampliado sua audiência ao defender o auxílio emergencial na pandemia. Em 2022, retirou sua candidatura presidencial e apoiou Lula.
Aliados elogiaram sua rapidez para reagir e mudar o foco do debate. O deputado Paulo Pimenta (PT) defendeu a diversidade de estilos na campanha, enquanto Renan Santos, fundador do MBL e adversário de Lula, afirmou que a atuação de Janones seria estudada nos anos seguintes. Na esquerda, porém, havia receio de que o estilo combativo prejudicasse a imagem moderada de Lula. Janones disse, ao comentar seu livro Janonismo Cultural, que recorria a blefes, não a notícias falsas; a Agência Lupa já havia documentado publicações desinformativas do deputado. Em 2026, a campanha de Flávio levou o canal ao TSE, acusando-o de divulgar mentiras. Janones negou, e um relatório técnico não encontrou nas publicações examinadas, de 2 a 11 de outubro, as afirmações citadas nos autos.
O alcance digital contrasta com o resultado eleitoral de Janones: reeleito por Minas Gerais em 2026, recebeu 78.780 votos, ante 238.967 em 2022, uma queda de 67%, conforme o TSE. A expansão do canal ocorreu depois do primeiro turno, quando a disputa para a Câmara já havia terminado. Ainda assim, Lula agradeceu sua mobilização numa live após o debate da Globo, na madrugada de sábado (24), e disse: “Você vai subir de patente”.
O cientista político Leandro Consentino, do Insper, avaliou que Janones poderia ganhar importância no governo, especialmente na comunicação digital. Ele comparou mecanismos de confronto e mobilização usados pelo deputado aos de Pablo Marçal, apoiador digital de Flávio Bolsonaro, embora ressalve diferenças ideológicas e de trajetória. Tathiana Chicarino, da FESPSP, também reconhece semelhanças no uso emocional das redes, mas afirma que isso não iguala o conteúdo nem os limites éticos das atuações.
Para Consentino, a comunicação de redes sociais pode ganhar espaço diante do marketing político tradicional, mas o estilo de confronto tende a funcionar melhor na oposição do que na defesa de um governo. Ele vê Janones como referência para a esquerda, sem considerar isso necessariamente positivo, e aponta o risco de campanhas personalistas e menos centradas em políticas públicas. Chicarino defende que partidos, movimentos sociais e governo incorporem o aprendizado digital, independentemente de Janones ocupar uma função oficial.
