Lula reeleito: vitória orgânica que parecia improvável

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Lula vence o 2º turno com 51,79% dos votos e seguirá na Presidência; Flávio Bolsonaro teve 48,21%, com 99,99% das urnas apuradas. (Foto: Instagram)

A ciência política não previa esse resultado. Em geral, presidentes que tentam a reeleição no Brasil contam com vantagens como visibilidade, estrutura e a possibilidade de apresentar resultados. Mas, antes do segundo turno deste domingo, 25 de outubro, o cenário não parecia favorável a Luiz Inácio Lula da Silva, apesar dos bons indicadores econômicos.

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Nos últimos anos, a América Latina foi marcada pela ascensão de conservadores de extrema direita. Javier Milei venceu na Argentina em 2023 e José Antonio Kast foi eleito no Chile no fim de 2025. No Brasil, o governo de esquerda enfrentava avaliações ruins, somadas ao desgaste político e aos anos de Lula no poder, em meio a uma tendência regional à direita.

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As pesquisas sobre eleições em dois turnos indicam que é difícil reverter uma desvantagem na primeira votação. Ainda assim, em 4 de outubro, Lula ficou atrás do senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro: Flávio obteve cerca de 47% dos votos válidos, ante 45% do presidente. Na véspera da votação final, em 24 de outubro, uma pesquisa ainda apontava a vitória do senador ou um empate técnico.

Também se esperava uma abstenção elevada. No Brasil, o segundo turno presidencial ocorre junto às disputas estaduais que ainda não foram decididas, e eleitores de locais onde os governadores já estão definidos podem deixar de voltar às urnas. Embora o voto seja obrigatório, a multa por faltar sem justificativa é de poucos reais, menos de um dólar. Desta vez, porém, a abstenção ficou abaixo da média histórica.

Ao fim de 25 de outubro de 2026, Lula venceu com cerca de 4 milhões de votos de vantagem, mais que o dobro da diferença registrada em 2022. Parte da virada é atribuída à mobilização nas redes sociais, que também ganhou as ruas. A articulação foi conduzida em grande medida pelo deputado federal André Janones, aliado do presidente e conhecido por alcançar públicos diversos na internet.

A mobilização lembrou, pela dimensão, o movimento Diretas Já, nos anos 1980, quando multidões pediram eleições presidenciais diretas e contribuíram para encerrar a ditadura militar, que governou o país de 1964 a 1985. A participação envolveu diferentes idades e chamou atenção pela presença de idosos, grupo que a esquerda vinha tendo dificuldade para mobilizar. Seguindo orientações em um canal online com mais de 10 milhões de pessoas, alguns vestiram novamente a camisa do Brasil e foram a pontos de ônibus tentar convencer eleitores.

A campanha mostrou como a conversa digital pode ser levada às ruas e às seções eleitorais, invertendo a percepção de que a direita latino-americana dominava essa estratégia. Também pesaram os escândalos de corrupção envolvendo Flávio Bolsonaro e o fato de ele ser considerado menos carismático que o pai. A vitória, contudo, não elimina os riscos: em 2022, a derrota de Jair Bolsonaro foi seguida por acampamentos em frente a quartéis e pela invasão dos prédios dos três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023. O ex-presidente foi condenado por tentativa de golpe de Estado.

Em 2027, Lula encontrará governos estaduais e maiorias no Senado e na Câmara predominantemente de direita. Poderá negociar com o Centrão, bloco sem identidade ideológica clara que costuma apoiar governos em troca de cargos e recursos, mas a governabilidade será difícil. Quase certamente em seu último mandato, aos mais de 80 anos, Lula terá de lidar com a oposição e poderá contar novamente com a mobilização de jovens nas redes e nas ruas. Para a região, o resultado pode interromper o avanço da extrema direita e dos modelos de encarceramento em massa associados a Nayib Armando Bukele, de El Salvador. No Brasil, ainda prevalece o apoio à prevenção da violência por inclusão social e ressocialização, e a escolha eleitoral reforçou a jovem democracia.