
As eleições brasileiras de 2026 foram frequentemente descritas como polarizadas, mas essa ideia pressupõe uma simetria que não existia entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. De um lado estava um presidente de centro-esquerda moderado, com Geraldo Alckmin, de centro-direita, como vice. Do outro, um senador ligado à direita radical internacional, que ameaça democracias mundo afora.
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Se fosse alemão, Flávio estaria na Alternative für Deutschland, defensora da aproximação com a Rússia de Vladimir Putin e do fim da transição energética. Em Portugal, seria próximo de André Ventura, do Chega, partido que propõe repatriar imigrantes e proibir templos muçulmanos. Ficaria distante da direita moderada que governa esses países: o Partido Democrata Cristão de Friedrich Merz e a Aliança Democrática de Luís Montenegro. Flávio representa a direita à direita da direita.
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No lançamento de sua candidatura, em um evento do Partido Liberal em São Paulo, Flávio apresentou três propostas centrais. O Projeto Treva, inspirado nas medidas de Nayib Bukele em El Salvador; a adesão ao Escudo das Américas, grupo ligado a Donald Trump; e o “tesourão”, corte de despesas públicas baseado na “motosserra” de Javier Milei. Sem detalhar a proposta fiscal, deixou dúvidas sobre seu alcance e provocou temor entre pessoas que dependem de programas sociais.
Milei compareceu ao evento cantando “The Panic Show”, da banda argentina La Renga, cuja letra diz: “Yo soy el león, soy el rey y te destrozaré”. Flávio cantou e dançou com o presidente argentino. A mensagem, segundo a análise, está tanto na forma quanto no conteúdo: os integrantes dessa ultradireita rejeitam a negociação, embora ela seja essencial à política, e tratam adversários como inimigos a eliminar. Também seriam ideias inadequadas às realidades dos países. O plano de Bukele prevê prisões sem acusação formal, advogado ou habeas corpus, algo incompatível com uma democracia. E, embora o Brasil precise de ajuste fiscal, sua situação não é como a da Argentina, que viu a moeda derreter e acumulou dívidas em dólares.
O Financial Times comparou recentemente o bolsonarismo ao clã Roy, da série Succession. Flávio, nessa leitura, seria um genérico da marca Bolsonaro: no debate da TV Globo, chamou o governo do pai de “nosso governo”. Como presidente, governaria sob a supervisão de Jair e ao lado de Eduardo, próximo de Viktor Orbán, Santiago Abascal, Nayib Bukele, Marine Le Pen e da ala radical do Partido Republicano dos Estados Unidos. Embora tenha tentado se apresentar como o “Bolsonaro moderado”, Flávio, ao reagir à derrota de 25 de outubro, praticamente convocou seguidores à insurreição.
A vitória de Lula, portanto, pode ser entendida como uma escolha conservadora e prudente. Lula já governou o país três vezes, e os eleitores conhecem sua atuação. Do outro lado estava um clã associado à política radical, cujo líder está preso por tentativa de golpe de Estado. As imagens da destruição dos palácios dos Três Poderes, em 8 de janeiro, permaneciam vivas na memória. Diante da previsibilidade conhecida e do risco representado por extremistas, os brasileiros preferiram não arriscar a democracia.








