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‘Garimpo do Mauro Mendes’: senador eleito é denunciado por contrabandear 580 kg de mercúrio


MPF denuncia Mauro Mendes por suspeita de envolvimento em esquema de contrabando de mercúrio (Foto: Instagram)

O Ministério Público Federal denunciou Mauro Mendes, ex-governador de Mato Grosso e senador eleito pelo União, por supostamente integrar uma organização criminosa envolvida no contrabando e na importação clandestina de mercúrio. Conforme a denúncia, o metal era destinado a garimpos no Pará e em Mato Grosso. Os procuradores estimam que o grupo adquiriu ilegalmente 589,37 kg da substância, volume que poderia estar relacionado à movimentação de cerca de R$ 747,5 milhões em ouro.

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Mendes foi eleito senador por Mato Grosso com 1.187.352 votos e é acusado de contrabando e manipulação irregular de resíduos perigosos. Ele também é investigado na Operação Heritage, que apura suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e uso indevido de informação privilegiada em um desvio de mais de R$ 308 milhões ligado a um acordo de precatórios com a Oi S.A. Ele nega irregularidades. Procurado para se manifestar sobre a denúncia, não havia respondido.

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A denúncia, de 56 páginas e baseada na Operação Hermes Hg, também envolve Luis Antônio Taveira Mendes, filho do ex-governador, e Rafael Martins Moreira dos Santos, conhecido como “Piqui”. Mineração Aricá e Kin Mineração são citadas na ação. O mercúrio é usado para separar o ouro dos demais minerais, mas representa riscos à saúde e ao meio ambiente: sua queima libera vapor tóxico, e, na água, pode se transformar em metilmercúrio, que contamina peixes e chega às pessoas pela alimentação.

Segundo o MPF, o grupo trazia mercúrio por rotas terrestres da Bolívia e tentou importá-lo da China, disfarçado como tinta ou potes de shampoo, e do México, por encomendas aéreas. Para evitar a fiscalização, a substância teria sido escondida em compartimentos de veículos, garrafas plásticas, pesos de academia e martelos ocos. A organização também teria criado créditos virtuais falsos no sistema do Ibama para dar aparência legal ao produto, além de recorrer a empresas que declaravam recuperar de lâmpadas quantidades de mercúrio consideradas impossíveis em escala industrial.

Durante buscas, a Polícia Federal encontrou 5,34 kg de mercúrio em uma bacia com água turva, dentro de um laboratório, e cadernos com anotações sobre seu uso na mineração. O Ibama apontou que a Mineração Aricá não tinha registros de aquisição regular do metal e que a Kin Mineração não estava inscrita no Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras e Utilizadoras de Recursos Ambientais. Entre 18 de agosto e 6 de setembro de 2022, a Aricá transferiu R$ 104.122,93 à J.S. Torres e pagou R$ 31 mil diretamente a Arnoldo Silva Veggi. A PF atribui ao Grupo Veggi atuação, entre 2018 e 2022, em uma organização transnacional de venda ilegal de mercúrio.

O filho de Mendes aparece ligado às mineradoras por meio da Sollo Mineração S/A, que tinha participação na Aricá e na Kin. O geólogo Bruno Kenzo Deitos declarou à PF que Luis Antônio exercia funções gerenciais na “linha 04” da planta e acompanhava os trabalhos. Embora Mauro Mendes não conste formalmente como sócio ou administrador das empresas, a denúncia cita conversas sobre o destino do mercúrio: em 9 de junho de 2022, Rafael Martins disse que o empreendimento “É do Mauro”; quatro dias depois, Arnoldo Silva Veggi se referiu à remessa como destinada ao “Garimpo do Mauro Mendes”.

A denúncia também registra que Deitos afirmou ter visto Mauro Mendes nas instalações, acompanhando obras e atividades com o filho. Em outra conversa de 9 de junho de 2022, Rafael Martins disse: “É do Mauro, cara! Ele é amigo do meu pai”. Para os procuradores Luisa Astarita Sangoi e Ricardo Perin Nardi, as referências nas negociações, a presença de Mendes na mineradora e a atuação de Luis Antônio são elementos a serem considerados na apuração da possível ligação do ex-governador com o fornecimento clandestino de mercúrio.

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