
Estudos indicam que o cérebro dos recém-nascidos já apresenta sinais de atividade complexa e percepção do ambiente. (Foto: Instagram)
O cérebro dos recém-nascidos pode apresentar mais consciência do que os cientistas supunham. Pesquisas reunidas em uma reportagem publicada no último domingo (25) apontam que, desde os primeiros dias de vida, bebês exibem atividade cerebral ligada à percepção do mundo, reconhecem mudanças em sons e têm redes neurais semelhantes às de adultos acordados. Os estudos incluem trabalhos da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e do Trinity College Dublin, na Irlanda, além de descobertas de Claudia Passos-Ferreira, da Universidade de Nova York, Lorina Naci, do Trinity College Dublin, e Katarzyna Chawarska, da Universidade Yale.
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Ainda não se sabe com precisão quando a consciência começa a surgir. Os resultados, porém, indicam que as respostas dos bebês não são apenas reações automáticas a estímulos: desde cedo, o cérebro realiza processos complexos que podem contribuir para a percepção do ambiente e para a formação de vínculos com as pessoas próximas. Uma experiência conduzida na Alemanha examinou a capacidade dos recém-nascidos de perceber sons inesperados. Bebês ficaram em berços equipados com sensores que identificavam pequenas mudanças na atividade cerebral.
Os cientistas tocaram sequências de sons graves e agudos e, quando alteraram a ordem, registraram uma resposta cerebral específica. Reações semelhantes também aparecem em adultos conscientes ao notarem algo inesperado. Claudia Passos-Ferreira explicou que o resultado indica que o cérebro dos recém-nascidos já realiza certos processos de modo parecido com o cérebro adulto. Isso não quer dizer que os bebês tenham o mesmo nível de consciência de pessoas mais velhas, mas fornece uma pista sobre o desenvolvimento cerebral.
Outra evidência veio do Developing Connectome Project, um amplo projeto científico realizado em Londres. Para estudar o cérebro de centenas de bebês, inclusive recém-nascidos, os pesquisadores adaptaram equipamentos de ressonância magnética. Durante os exames, observaram a atividade de diferentes regiões e analisaram como elas se comunicavam. Lorina Naci e sua equipe identificaram redes de atividade coordenada semelhantes às observadas em adultos acordados. Entre adultos, a comunicação entre áreas cerebrais é considerada um dos possíveis indicadores de consciência.
A presença dessas redes nos primeiros dias de vida sugere que a organização cerebral infantil pode ser mais sofisticada do que se acreditava. Em outra pesquisa, divulgada pela Universidade Yale em 13 de outubro de 2026, cientistas verificaram que uma rede relacionada ao processamento de rostos e às interações sociais começa a se organizar ainda no terceiro trimestre da gravidez. Essa capacidade contribui para que os bebês prestem atenção em rostos, expressões e movimentos das pessoas que cuidam deles.
Katarzyna Chawarska explicou que reconhecer sinais sociais, entre eles sorrisos, contato visual e vocalizações, é essencial para o vínculo entre recém-nascidos e cuidadores. A descoberta indica que parte da preparação cerebral para a interação com o mundo ocorre antes do nascimento. Apesar desses avanços, os pesquisadores ainda não determinaram o momento exato em que começa uma experiência consciente. Como recém-nascidos não conseguem falar nem explicar o que sentem, avaliar a consciência é difícil.
A consciência envolve perceber o ambiente e ter experiências subjetivas. Por isso, os cientistas consideram sinais como atividade cerebral, respostas a estímulos e conexões entre regiões do cérebro. Uma pesquisa com especialistas em consciência infantil, publicada em 2026, constatou que 75% dos participantes consideram que recém-nascidos normalmente têm alguma forma de consciência. Os pesquisadores ressaltam que a consciência infantil provavelmente difere da adulta e continua se desenvolvendo ao longo da infância. Os achados ajudam a compreender o desenvolvimento humano e mostram que os bebês já têm um cérebro muito ativo antes de aprender a falar ou caminhar.
