
Cais do Valongo, Sociedade Protetora dos Desvalidos e Serra da Barriga integram rede da Unesco dedicada à memória da escravidão e à resistência negra. (Foto: Instagram)
O Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, a Sociedade Protetora dos Desvalidos, em Salvador, e a Serra da Barriga, em União dos Palmares, passaram a fazer parte de uma rede da Unesco dedicada à memória da escravidão e à resistência negra. A iniciativa pretende preservar esses locais e ampliar o reconhecimento de sua importância histórica.
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A inclusão foi anunciada em 29/10/2026. O Ministério das Relações Exteriores afirmou que a decisão contribui para preservar e transmitir a memória da escravidão, reconhecer a resistência histórica da população negra e promover a educação das novas gerações. O Itamaraty apresentou a candidatura brasileira à rede.
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O Cais do Valongo foi incluído por conservar vestígios de um dos principais pontos das Américas de desembarque de africanos escravizados. Situado na região portuária do Rio de Janeiro, o local já havia sido reconhecido pela Unesco em 2017 e incluído na Lista do Patrimônio Mundial.
Fundada em 1832 por Manoel Victor Serra e outros homens negros livres, a Sociedade Protetora dos Desvalidos é considerada a primeira instituição civil negra do Brasil em funcionamento contínuo. A entidade é uma referência histórica de organização e solidariedade desde o século XIX. Na Bahia, afirmou que sua trajetória se conecta às Revoltas dos Búzios (1798) e dos Malês (1835), associando mobilização, apoio coletivo e luta pela liberdade.
Em União dos Palmares, Alagoas, a Serra da Barriga abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares e preserva a memória do quilombo, símbolo de resistência à escravidão no Brasil. A área integra a União desde 1988. A rede da Unesco foi criada em 2024, como parte do Programa Rotas dos Escravizados: Resistência, Liberdade e Patrimônio, para conectar lugares de diferentes países e incentivar cooperação, pesquisa, educação e iniciativas com participação das comunidades locais.
Marlova Jovchelovitch Noleto, diretora e representante da Unesco no Brasil, afirmou que a rede também busca transmitir essa memória às novas gerações e ajudar a compreender os efeitos duradouros da escravidão, como o racismo estrutural e as desigualdades atuais. Segundo ela, o reconhecimento favorece a troca de experiências e ações conjuntas. A iniciativa já inclui no Brasil o Museu da Inconfidência, em Minas Gerais, e os Museus Casa da Hera e da República, no Rio de Janeiro.
O doutor em História Comparada pela UFRJ Ivanir dos Santos avaliou que a decisão ultrapassa o reconhecimento patrimonial: os locais ajudam a questionar narrativas tradicionais sobre a formação do país e a evidenciar o protagonismo negro. Para ele, a Serra da Barriga representa a luta por liberdade, o Cais do Valongo expõe a violência do tráfico transatlântico e a Sociedade Protetora dos Desvalidos revela formas de associação e apoio mútuo diante do racismo e da desigualdade. Ivanir defendeu políticas de preservação, educação antirracista e participação das comunidades negras na gestão dos espaços, ressaltando que a história do Brasil também foi construída pela resistência, pelo trabalho e pelas contribuições dos povos africanos e de seus descendentes.
