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Lodo de tratamento de água é transformado em fertilizante de liberação lenta


Embrapa e Sabesp desenvolvem fertilizante de liberação lenta a partir de lodo de estações de tratamento de água. (Foto: Instagram)

Uma tecnologia desenvolvida pela Embrapa e pela Sabesp transforma lodo de estações de tratamento de água (ETAs) em fertilizante de liberação lenta. O processo hidrotérmico neutraliza o alumínio tóxico presente no resíduo e acrescenta nutrientes como nitrogênio e potássio, convertendo um passivo ambiental em insumo agrícola. A inovação também permite produzir grânulos que podem servir de veículo para microrganismos benéficos às plantas.

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O lodo de ETA tem composição variável, pouca matéria orgânica e alta concentração de sais de alumínio, fatores que limitam seu uso na agricultura. Testes em laboratório e em casa de vegetação tiveram resultados positivos. A próxima etapa é buscar empresas para estruturar um projeto-piloto industrial e avaliar a produção em maior escala, combinando fertilização e proteção biológica.

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Diferentemente do lodo de esgoto, que contém bastante matéria orgânica, o material das ETAs concentra sais de alumínio usados no tratamento da água. O alumínio livre pode prejudicar raízes e dificultar a absorção de nutrientes, como o fósforo, explica Caue Ribeiro, coordenador do projeto na Embrapa Instrumentação (SP). A pesquisa, liderada pela unidade, envolveu também equipes da Embrapa Pecuária Sudeste (SP) e da Embrapa Meio Ambiente (SP), com apoio da FAPESP e participação de outras unidades da Embrapa. O trabalho durou 4 anos e recebeu mais de R$ 2,7 milhões.

A Sabesp produz cerca de 124 mil toneladas de lodo desidratado por ano em suas 208 ETAs no estado de São Paulo. O transporte pode chegar a 16 viagens diárias nas maiores unidades, e o custo médio de transporte e destinação é de aproximadamente R$ 300 por tonelada. Marco Barros, diretor corporativo da companhia, afirma que a pesquisa na ETA Vargem Grande Paulista busca reduzir o envio do material a aterros. Entre os próximos passos estão validar o produto em campo e avaliar os procedimentos para eventual registro no Mapa.

A rota hidrotérmica transforma o lodo em concentrados zeolíticos, minerais de silício e alumínio, que são usados em grânulos com amido plastificado com ureia. O fertilizante fornece nitrogênio e potássio de maneira gradual. Segundo Raquel Cardoso Machado, o tratamento forma cristais de sodalita, que retêm o alumínio em sua estrutura e reduzem a possibilidade de liberação no ambiente. A sodalita também pode recuperar potássio de efluentes da suinocultura; os grânulos têm resistência física e se biodegradam gradualmente no solo.

Em casa de vegetação, testes com azevém e capim-piatã indicaram maior eficiência agronômica, sobretudo na produção de biomassa e absorção de nutrientes. No azevém, os grânulos com sodalita tiveram eficiência de 2 a 3 vezes superior à do controle; na braquiária, a tendência foi semelhante, mas a diferença foi menor. Alberto Bernardi e Ana Rita Nogueira relatam que as análises avaliaram nutrientes e possíveis perdas de nitrogênio. A zeólita ajuda a retê-lo e a mantê-lo disponível às raízes. O resultado pode ser relevante para o Brasil, que importa cerca de 80% da ureia consumida.

Os grânulos não foram adequados para incorporar o fungo Trichoderma asperelloides, mas mostraram compatibilidade com a bactéria Bacillus megaterium. Monitorada por quase 5 meses, a bactéria permaneceu viável, indicando potencial para armazenamento e aplicação de inoculantes biológicos. Em estudo da Embrapa Meio Ambiente, Paul Esteban Pherez Perrony avaliou dois tipos de lodo in natura em latossolo tropical, em doses de 0% a 100%. O feijão teve redução de biomassa acima de 25%, enquanto o milho tolerou até 50%; não houve acúmulo de metais nos grãos. Wagner Bettiol aponta doses de até 5% para produção de alimentos e de até 15% para tecnossolos e recuperação de áreas degradadas.

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