Distrital misto limita “puxadores”, mas mantém desequilíbrio entre UFs

Posted by

–


Partidos de centro articulam proposta para adotar voto distrital e proporcional misto nas eleições para deputados e vereadores a partir de 2034. (Foto: Instagram)

Partidos de centro articulam uma reforma política para mudar, a partir de 2034, a escolha de deputados e vereadores. A proposta em discussão adota um sistema distrital e proporcional misto: cada eleitor votaria duas vezes, em um candidato do distrito e em uma lista partidária. As regras detalhadas ainda não foram apresentadas ao Congresso.

++ Sistema de IA revela como pessoas comuns estão criando novas fontes de renda online

A intenção de votar a mudança ainda em 2026 foi anunciada em reunião na quarta-feira (28.out.2026) entre dirigentes partidários e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Participaram PSB, União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, a federação PSDB-Cidadania e Podemos. PL, PT, Psol, Novo e Missão não estiveram no encontro. A mudança exige uma PEC aprovada em dois turnos, por ao menos três quintos dos votos na Câmara e no Senado. Ela atingiria eleições proporcionais, não a escolha de senadores.

++ Madeleine McCann, desaparecida em 2007, aparece mencionada nos arquivos do caso Epstein

Hoje, o eleitor vota uma vez, em um candidato ou diretamente na legenda, e os votos são somados para o partido ou a federação. As cadeiras são distribuídas conforme o quociente eleitoral, calculado pela divisão dos votos válidos pelo número de vagas. Em São Paulo, por exemplo, as 70 cadeiras na Câmara correspondem a um quociente de 350 mil votos se houver 24,5 milhões de votos válidos. Pela lista aberta, os mais votados ocupam as vagas, mas um candidato precisa alcançar individualmente ao menos 10% do quociente para ser eleito. Candidatos com votação alta também podem ajudar outros nomes da chapa.

No modelo misto, cada estado seria dividido em distritos de população equivalente. Metade das vagas caberia aos mais votados em cada distrito; a outra metade seria distribuída proporcionalmente aos votos dados aos partidos ou federações. Quem vence no distrito garante a vaga e pode ultrapassar a ordem da lista partidária. Defensores dizem que isso aproximaria deputados dos eleitores, mas 308 dos 513 deputados federais eleitos em 2026 já obtiveram pelo menos metade dos votos em até dez cidades. Como apenas metade das cadeiras seria distrital, a mudança poderia reduzir essa proximidade.

O modelo também não resolveria a diferença de representação entre estados. Roraima, com 761.012 habitantes em 2026, tem oito cadeiras, seis a mais do que teria pelo cálculo populacional citado. São Paulo, com 46,2 milhões de habitantes, tem 70 vagas, 41 a menos do que a proporção indicaria. Nos Estados Unidos, 349,7 milhões de habitantes elegem 435 representantes; o Brasil, com 214,2 milhões, tem 513 deputados federais. A proposta não aborda essa disparidade.

Para Bruno Pinheiro Wanderley Reis, cientista político e professor da UFMG, a articulação dos partidos de centro responde ao avanço de bancadas de “opinião” e de siglas como PL e PT nas eleições de 2026, enquanto o Centrão perdeu espaço. Na avaliação dele, a mudança atende a interesses estratégicos e pode impor limites à votação individual, dando mais estabilidade às legendas tradicionais. Reis também aponta preocupação com campanhas isoladas impulsionadas por redes sociais e algoritmos. Embora considere que listas pré-ordenadas possam ser úteis, ressalta que desenhar distritos é complexo e conflituoso; também critica o modelo exclusivamente distrital como anacrônico.

Entre os possíveis benefícios apontados por especialistas estão campanhas mais ligadas aos programas partidários, maior cobrança sobre eleitos e partidos, menor dependência de redes sociais e representação de lideranças locais. Entre os riscos estão a complexidade de dois votos e dos cálculos, a manipulação do desenho dos distritos, a necessidade de cadeiras adicionais quando um partido vence em mais distritos do que sua proporção permitiria e o aumento da influência das cúpulas partidárias sobre as listas fechadas.

Na avaliação apresentada sobre quem pode ganhar, aparecem partidos médios como União Brasil, PSD, PP, Republicanos, MDB e Podemos, que elegeram de 27 a 46 deputados. O pesquisador observa que o PL também poderia se beneficiar da votação em lista, por já contar com uma marca partidária consolidada, assim como o PT.