
Quase 20 anos após esquecer documentos ultrassecretos em um trem, Richard Jackson relembra a crise que abalou sua vida e conta como conseguiu recomeçar. (Foto: Instagram)
Quase 20 anos depois de esquecer documentos confidenciais em um trem, o ex-funcionário público britânico Richard Jackson conta como o episódio abalou sua vida e como conseguiu se reconstruir. Em entrevista a Sian Williams para o programa Life Changing, da BBC Rádio 4, ele afirma que é possível seguir em frente mesmo após cometer o que parece ser o pior erro da própria vida.
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Na época, Jackson tinha 37 anos e vivia em Yateley, no sul do Reino Unido, com a esposa, Maddie, e a enteada Charlotte, de 15 anos. Becky, sua outra enteada, tinha 20 anos e estava na universidade. Ele diz que era feliz, mas estava tão dedicado à carreira que chegou a trabalhar 100 horas por semana e baseava seu valor pessoal no cargo e nas responsabilidades.
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Depois de ser transferido do Ministério da Defesa para o Gabinete do governo, Jackson passou a trabalhar com terrorismo global e teve acesso a informações de inteligência do GCHQ, MI5 e MI6. Numa segunda-feira, levou para casa formulários do trabalho e encontrou entre eles dois documentos ultrassecretos. Em vez de pedir que fossem recolhidos com segurança, decidiu guardá-los. Na manhã seguinte, colocou os papéis numa pasta laranja e embarcou no trem rumo ao trabalho.
Ao chegar ao escritório, percebeu que havia deixado a pasta no vagão. Procurou em todas as estações onde o trem parava, mas não a encontrou. Quando contou a Maddie, disse que havia arruinado a vida da família. No dia seguinte, soube que os documentos tinham sido encontrados e entregues à BBC. Sentiu alívio por estarem seguros, até perceber que seriam divulgados. A notícia foi destaque no informativo das seis da tarde, e ele foi suspenso.
Jackson se isolou em casa e, durante aquela manhã, pensou em morrer sem sentir dor. Maddie o encontrou chorando e o acolheu. Os dois passaram a tarde conversando, e ele entendeu que não conseguiria superar a situação sozinho. O Gabinete considerou o caso uma falta grave e o rebaixou em três níveis. Processado sob a Lei de Segredos Oficiais, evitou a prisão, mas recebeu multa de 2,5 mil libras, cerca de R$ 16,9 mil pelo câmbio atual.
Com ajuda de pessoas próximas, Jackson retomou o trabalho no Ministério da Defesa, em recursos humanos, e depois foi transferido para o Departamento de Cultura, Meios de Comunicação e Esporte para trabalhar nos Jogos Olímpicos de Londres 2012. Mais tarde, deixou o funcionalismo público e trabalhou para os samaritanos. Também liderou uma equipe de analistas de riscos do terrorismo global e começou a estudar para atuar como coach de desenvolvimento pessoal.
Após ser demitido, criou a NewDay, empresa de coaching que ajuda pessoas a lidar com o estresse de administrar material perturbador. Jackson diz que compartilhar sua história passou a fazer sentido e quer mostrar que há maneiras de reparar erros e buscar apoio. Para isso, recomenda escrever ou conversar para organizar os pensamentos, manter atividades prazerosas, lembrar conquistas e contar com alguém que ofereça apoio sincero.
Ele também aconselha assumir a responsabilidade pelos danos causados e corrigir o que for possível, sem se culpar pelo que não provocou. Para Jackson, um momento ruim não define uma vida inteira. Ele diz que não se perdoou, mas voltou a ser feliz; hoje, valoriza mais a família, está presente em casa e não trabalha mais 100 horas por semana.








