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Hackers se tornam fontes e desafiam as práticas do jornalismo


Jornalistas recorrem a métodos tradicionais de checagem para avaliar dados obtidos em invasões, mas enfrentam dilemas sobre a origem, a segurança das fontes e o interesse público. (Foto: Instagram)

Reportagens de grande repercussão nos últimos anos usaram informações obtidas em ataques cibernéticos e divulgadas por hackers. Na onda de hacktivismo dos anos 2010, o Anonymous e grupos aliados invadiram empresas e órgãos governamentais, transformando dados roubados em notícias. Mais recentemente, documentos extraídos de instituições russas e arquivos internos de empresas de vigilância também chegaram a jornalistas por meio de invasões.

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Uma pesquisa publicada na revista Journalism Practice reuniu entrevistas com 10 jornalistas dos Estados Unidos e da Europa que trabalham ou já trabalharam com dados obtidos em invasões. Alguns cobrem temas cibernéticos; outros atuam principalmente em atualidades e conflitos internacionais. Os profissionais trabalham em veículos investigativos, generalistas e especializados em tecnologia, e tiveram diferentes níveis de contato com hackers.

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Os entrevistados descrevem uma prática ainda em formação, sem diretrizes fixas ou procedimentos compartilhados. Alguns repórteres aplicam métodos tradicionais de investigação — checagem, entrevistas e contextualização — a grandes vazamentos. Outros acompanham exposições menores e frequentes de dados em espaços como a dark web, o Pastebin e repositórios de nuvem desprotegidos. Nesse segundo caso, a cobertura tende a ser rápida e voltada a violações de segurança, vulnerabilidades e privacidade digital.

Os hackers também passaram a agir de forma mais estratégica ao procurar a imprensa. Além de buscar reconhecimento, alguns avaliam como uma reportagem será apresentada e escolhem jornalistas que, em sua opinião, podem compreender o material e dar continuidade à história. Os dados podem vir de grupos de ransomware, criminosos motivados por dinheiro, agentes ligados a governos ou pessoas que se apresentam como hacktivistas independentes. O Distributed Denial of Secrets, por exemplo, atua como intermediário na divulgação de conjuntos de dados.

As motivações nem sempre são fáceis de distinguir. Vazamentos de criminosos podem servir como forma de extorsão, enquanto agentes estatais podem tentar dar aparência independente a divulgações com objetivos políticos. Já o hacker Phineas Fisher é conhecido pela atuação ativista contra empresas de vigilância e por procurar jornalistas para expor irregularidades. Ainda assim, identidades e interesses podem se misturar, inclusive quando o objetivo é apenas provocar.

Os materiais exigem ceticismo, mas as verificações usadas pelos jornalistas são, em geral, convencionais: confirmar endereços de e-mail nos registros de uma empresa, cruzar dados com fatos conhecidos e procurar sinais de adulteração nos arquivos. Quando a identidade da fonte não pode ser confirmada, os profissionais defendem informar isso ao público, ao mesmo tempo que explicam o que conseguiram autenticar. A incerteza pode fazer parte da própria reportagem.

Proteger fontes hackers também envolve escolhas distintas. Alguns jornalistas oferecem a mesma proteção concedida a qualquer fonte e não colaborariam com autoridades policiais, mesmo diante de uma fonte que se declare criminosa. Outros preferem saber o mínimo possível sobre quem forneceu os dados, para reduzir riscos. Repórteres que usam apenas materiais já disponíveis em fóruns de crimes cibernéticos ou outros repositórios tendem a considerar a proteção da fonte uma questão secundária, pois a origem pode ser impossível de rastrear.

Os entrevistados não veem uma regra ética universal para publicar dados obtidos ilegalmente: a decisão depende do caso e do que o material revela. Uma invasão pode ser errada, mas a divulgação talvez seja justificável se expuser crimes graves. Na avaliação dos profissionais, as redações poderiam desenvolver padrões de verificação para informações de origem ilícita, adotar transparência sobre as incertezas e criar uma linguagem comum para discutir decisões que hoje são tomadas individualmente.

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