
Pesquisas básicas podem levar décadas para se transformar em tratamentos e tecnologias. Estudos sobre RNA mensageiro, PCR, edição genética e o veneno da jararaca ajudaram a desenvolver aplicações médicas usadas atualmente. (Foto: Instagram)
Vacinas de RNA mensageiro, edição genética e medicamentos para diabetes têm raízes em pesquisas que não começaram com uma aplicação imediata. A ciência básica investiga como os fenômenos funcionam; a aplicada parte de um problema a resolver. As duas se complementam, e descobertas feitas por curiosidade podem levar décadas para chegar à clínica, explica Welbert de Oliveira Pereira, do Ensino Einstein. Como não têm prazo nem garantia de uso comercial, pesquisas básicas dependem especialmente de universidades e recursos públicos. ++ Sistema de IA revela como pessoas comuns estão criando novas fontes de renda online
As vacinas contra a covid-19 ilustram esse percurso: seu desenvolvimento rápido se apoiou em décadas de estudos sobre coronavírus, RNA mensageiro, transporte de moléculas às células e resposta imunológica. Outro exemplo é a PCR. Na década de 1960, Thomas Brock e Hudson Freeze encontraram a bactéria Thermus aquaticus nas fontes termais do Parque Nacional de Yellowstone, nos EUA. Depois, pesquisadores isolaram nela a Taq polimerase, enzima resistente ao calor que tornou possível amplificar DNA sem acrescentar nova enzima a cada ciclo. Hoje, a PCR ajuda a diagnosticar doenças e identificar microrganismos. ++ Madeleine McCann, desaparecida em 2007, aparece mencionada nos arquivos do caso Epstein
Em 1990, pesquisadores tentaram intensificar a cor roxa das petúnias adicionando uma cópia do gene que produz o pigmento. Algumas flores, porém, ficaram brancas. O resultado indicava que o gene inserido havia silenciado o original. Em 1998, Andrew Fire e Craig Mello demonstraram que pequenas moléculas de RNA podiam destruir um RNA mensageiro específico. A interferência por RNA, descoberta que lhes rendeu o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2006, hoje embasa terapias contra doenças como amiloidose hereditária e hemofilia.
No Brasil, pesquisas sobre o veneno da jararaca contribuíram para o desenvolvimento de medicamentos contra hipertensão. Na década de 1940, Maurício Rocha e Silva e seus colaboradores identificaram a bradicinina, que dilata vasos sanguíneos e reduz a pressão. Mais tarde, Sérgio Henrique Ferreira encontrou no veneno peptídeos que prolongavam esse efeito ao bloquear a enzima conversora de angiotensina. A descoberta orientou químicos no desenvolvimento do captopril, medicamento oral que inibe a enzima.
As vacinas de RNA mensageiro também resultaram de estudos prolongados. A molécula, que leva às células instruções temporárias para produzir proteínas, se degrada facilmente e pode causar inflamação quando fabricada artificialmente. Em 2005, Katalin Karikó e Drew Weissman mostraram que modificações no RNA reduziam essa resposta. Pesquisas sobre nanopartículas lipídicas, capazes de proteger e transportar a molécula, completaram a plataforma usada nas vacinas contra o Sars-CoV-2, autorizadas no fim de 2020.
Sequências repetidas no DNA de bactérias, observadas por pesquisadores japoneses em 1987, levaram a outra ferramenta genética. Francisco Mojica identificou estruturas semelhantes e ajudou a revelar que microrganismos guardavam trechos de DNA de vírus para reconhecê-los em infecções futuras. Em 2012, Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna mostraram que o sistema Crispr-Cas9 podia ser reprogramado para cortar sequências escolhidas. A ferramenta já é usada em tratamentos para doenças do sangue, como anemia falciforme.
Pesquisas sobre o GLP-1, hormônio produzido no intestino após a alimentação, mostraram que ele estimula a liberação de insulina quando a glicose está elevada, além de reduzir o apetite e retardar o esvaziamento do estômago. Como o hormônio natural dura poucos minutos no organismo, cientistas buscaram alternativas. No início da década de 1990, estudos com o monstro-de-gila (Heloderma suspectum), lagarto venenoso da América do Norte, identificaram a exendina-4. O peptídeo, semelhante ao GLP-1 e de ação mais prolongada, serviu de base para a exenatida.
