
Governo Lula nega acesso a documentos que embasaram o Desenrola 3.0 e a proibição das bets (Foto: Instagram)
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) negou acesso a estudos, pareceres e relatórios que embasaram duas medidas anunciadas antes das eleições: o Desenrola 3.0 e a proibição das casas de apostas de quota fixa, as bets. A Casa Civil justificou a recusa com o sigilo profissional entre advogado e cliente. Especialistas e entidades de transparência contestam a interpretação e afirmam que ela pode ocultar indefinidamente informações públicas.
++ Sistema de IA revela como pessoas comuns estão criando novas fontes de renda online
As iniciativas foram anunciadas em 25 de setembro por meio de medidas provisórias, que entraram em vigor imediatamente e foram encaminhadas ao Congresso Nacional. Por preverem possíveis custos aos cofres públicos e terem sido lançadas às vésperas das eleições presidenciais, foram chamadas pela oposição de “pacote de bondades” e criticadas como supostamente eleitoreiras. Naquele período, Lula disputava o primeiro turno com Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
++ Madeleine McCann, desaparecida em 2007, aparece mencionada nos arquivos do caso Epstein
A BBC News Brasil solicitou os documentos em 25 e 28 de setembro, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). Em 29 de outubro, a Casa Civil negou os pedidos, afirmando que os pareceres jurídicos da Advocacia-Geral da União e do assessoramento jurídico da Presidência estavam protegidos pelo sigilo profissional. Segundo a pasta, os demais materiais também teriam sido usados para subsidiar a orientação jurídica e estariam sujeitos à mesma proteção.
O decreto 7.724 de 2012, que regulamenta a LAI, prevê a divulgação de documentos preparatórios depois que a decisão administrativa é tomada. Esses registros costumam reunir estudos, estimativas, avaliações e pareceres de órgãos envolvidos, permitindo conhecer os fundamentos de uma medida e eventuais alertas ou recomendações contrárias. Sem acesso ao material, não é possível saber quando as iniciativas começaram a ser estudadas nem quais riscos foram apontados.
O Desenrola 3.0 prevê que o governo compre, por meio de leilão, carteiras de crédito de instituições financeiras com clientes inadimplentes e conceda descontos de até 90% nas dívidas. No lançamento, o ministro do Planejamento e Gestão, Bruno Moretti, estimou impacto de até R$ 15 bilhões nas contas públicas até 2028. Não foram apresentados estudos sobre possíveis efeitos negativos ou sobre eventual avaliação prévia de eficiência.
No caso das bets, associações do setor afirmaram que a proibição poderia impulsionar o mercado ilegal e reduzir a arrecadação tributária. Empresas também disseram que recorreriam à Justiça para tentar recuperar os R$ 2,5 bilhões pagos em outorgas para operar no país. Bruno Morassutti, cofundador e diretor de advocacy da Fiquem Sabendo, afirmou que a interpretação adotada impede o público de conhecer os motivos técnicos das decisões e abre espaço para desinformação. A LAI prevê prazos de sigilo de 5 anos para documentos reservados, 15 para secretos, 25 para ultrassecretos e até 100 anos para informações pessoais. A Casa Civil defendeu a restrição, alegando que o sigilo profissional de advogados públicos tem fundamento no Estatuto da Advocacia.








