Site icon Jetss BR

Derrota eleitoral impulsiona boicotes, demissões e agressões de bolsonaristas contra petistas


A derrota de Flávio Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva repercutiu no trabalho e no comércio, com políticos e influenciadores defendendo demissões e boicotes contra eleitores petistas. (Foto: Instagram)

A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições deixou de se limitar à disputa política e repercutiu no trabalho, no comércio e na convivência social. Na última semana, políticos e influenciadores bolsonaristas defenderam demitir trabalhadores que votaram no petista, evitar contratar profissionais identificados com o partido e boicotar estabelecimentos comerciais.

++ Sistema de IA revela como pessoas comuns estão criando novas fontes de renda online

Entre sábado, 24, véspera do segundo turno, e terça-feira, 27, 48 horas depois do fim da votação, foram registradas dez mortes por violência com motivação política no Brasil, segundo dados apresentados pelo governo federal em uma coletiva na quarta-feira, 28. Os episódios de hostilidade também se refletiram nas denúncias de assédio eleitoral recebidas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT): das 2.177 registradas neste ano, mais de 530 chegaram após o resultado da eleição presidencial.

++ Madeleine McCann, desaparecida em 2007, aparece mencionada nos arquivos do caso Epstein

Em publicações nas redes, houve orientações explícitas para que empresários cortassem relações profissionais com eleitores do PT. “Você tem uma empregada que é petista? Demita! Tem um funcionário que é petista? Demita!”, escreveu a vereadora de Londrina Jessica Ramos Moreno, conhecida como Jessicão (PL). A influenciadora Josiflora sugeriu evitar ajudar petistas em situações cotidianas, como pedidos de emprego e favores. Na quinta-feira, 29, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) compartilhou o vídeo de uma empresária que disse ter perdido clientes após a eleição e afirmou que as pessoas são livres para deixar de frequentar seu comércio.

Para o psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), essas atitudes não são apenas uma reação imediata à derrota. Elas reproduzem a linguagem de confronto da campanha e das redes, enquanto a postura das lideranças diante do resultado influencia a forma como os apoiadores lidam com a perda. Segundo ele, quando um líder não aceita a derrota e demonstra hostilidade ao processo e às suas regras, transmite essa mensagem a quem está elaborando o resultado.

Dunker avalia que tratar adversários como inimigos, em vez de reconhecer grupos com posições políticas distintas, leva a disputa eleitoral para outros espaços da vida. Nesse cenário, o boicote comercial pode se tornar uma forma de retaliação. Para ele, discursos cuja retórica central é a guerra não buscam derrotar adversários, mas eliminar inimigos.

O cientista político Rangel Ramiro Ramos, professor da Escola de Educação e Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), considera que as ações podem fazer parte de uma mobilização digital construída pelo bolsonarismo ao longo dos últimos anos. Mensagens semelhantes e a atuação de influenciadores, afirma, ajudam a organizar iniciativas que parecem espontâneas. Ramos cita o astroturfing, estratégia que simula apoio popular espontâneo e pode mobilizar perfis e grupos para ampliar narrativas. Ele diz que suas pesquisas de mestrado e doutorado analisam métodos e estratégias discursivas usados para organizar essas narrativas e o ativismo digital.

Os especialistas também apontam o pertencimento político e a dificuldade de aceitar a derrota. Para Dunker, a perda pode ser percebida como eliminação social, levando o grupo a responsabilizar outros por sua insatisfação e a buscar excluir adversários. Ramos afirma que esse vínculo é mobilizado de forma organizada para conquistar ou manter poder, mesmo em detrimento da lei. Ele relaciona a hostilidade a narrativas que dividem grupos entre o bem e o mal, dificultando diálogo e convivência. Na avaliação do professor, a derrota nas urnas tornou mais visível uma dinâmica construída por discursos políticos e estratégias digitais ao longo de mais de uma década.

Exit mobile version