
Nanotecnologia pode ajudar a tornar a agricultura tropical mais eficiente, com insumos de liberação controlada e menor impacto ambiental. Pesquisas brasileiras avaliam aplicações e também a segurança dessas soluções. (Foto: Instagram)
Nas últimas décadas, avanços científicos e tecnológicos ajudaram a tornar o Brasil uma potência agrícola. O Cerrado, antes visto como difícil de aproveitar, passou a receber grandes sistemas produtivos graças à correção dos solos, a cultivares adaptadas e a novas práticas de manejo. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a safra de grãos de 2025/2026 alcance 361,7 milhões de toneladas, alta de 2,6%, e projeta 367 milhões para 2026/2027. A demanda também cresce: a população mundial pode chegar a 9,7 bilhões em 2050, segundo as Nações Unidas.
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Aumentar a produção sem ampliar na mesma proporção o uso de insumos e os impactos ambientais é um desafio central. Temperaturas altas, radiação solar intensa, chuvas concentradas e microrganismos do solo podem acelerar a degradação de agroquímicos e levar nutrientes a camadas mais profundas. Além disso, pragas, doenças e plantas daninhas podem exigir aplicações frequentes. Como muitas tecnologias agrícolas foram desenvolvidas para climas temperados, as condições tropicais demandam soluções próprias.
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A nanotecnologia trabalha com materiais e sistemas em escala de bilionésimos de metro, o que pode alterar suas propriedades e a interação com o ambiente. Uma revisão bibliométrica identificou 2.626 artigos sobre aplicações agrícolas da área publicados entre 2000 e 2023, incluindo pesquisas com nanofertilizantes, nanopesticidas, liberação controlada e sensores. No Brasil, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro) reúne especialistas para desenvolver insumos mais eficientes e avaliar possíveis impactos ambientais. Em 2024, pesquisadores discutiram o potencial dessas abordagens para a agricultura tropical na revista Plant Nano Biology.
Entre as aplicações está a nanoencapsulação, que envolve uma substância ativa em uma estrutura capaz de protegê-la e controlar sua liberação. A técnica pode reduzir a degradação de ingredientes, melhorar a adesão de produtos às folhas e diminuir perdas de nutrientes no solo. Pesquisas com nanoformulações de herbicidas apontam que a dose pode ser reduzida em até dez vezes sem perda de eficácia contra plantas daninhas, embora o resultado varie conforme a formulação, a espécie-alvo e as condições de aplicação.
Outros estudos combinam inseticidas nanoencapsulados com sinergistas, substâncias que aumentam a suscetibilidade dos organismos ao tratamento. Testes com o percevejo-marrom da soja (Euschistus heros) indicam potencial para lidar com populações resistentes. Pesquisas também avaliam reguladores de crescimento vegetal para ajudar plantas em situações de seca e nanopartículas que liberam óxido nítrico, molécula ligada ao desenvolvimento e à tolerância ao estresse. Essas soluções podem ter aplicações na silvicultura e na restauração ecológica.
A eficácia, porém, não basta: é necessário verificar a segurança dos nanomateriais para o solo, a água e os organismos vivos. O INCT NanoAgro realiza estudos de ecotoxicologia, destino ambiental, ciclo de vida e biossegurança para orientar condições de uso desde as etapas iniciais. Em dois anos, a iniciativa produziu 163 artigos científicos, estabeleceu 14 projetos cooperativos com empresas, registrou cinco patentes e apoiou duas startups de base tecnológica. A colaboração entre áreas, empresas e novos pesquisadores pode aproximar descobertas do cultivo real e ajudar o Brasil a desenvolver soluções adequadas aos trópicos.








