‘Relatório pericial’ apócrifo distorce dados para alegar fraude eleitoral

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Documento que aponta suposta fraude no segundo turno reúne interpretações distorcidas de dados públicos, afirmou a Justiça Eleitoral. A publicação foi compartilhada por apoiadores de Flávio Bolsonaro e pelo comentarista Joey Mannarino. (Foto: Instagram)

Um documento chamado “Relatório Pericial Independente” circula nas redes sociais com alegações de fraude no segundo turno das eleições presidenciais. O texto diz se basear em microdados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas reúne interpretações distorcidas sobre supostas irregularidades. A publicação foi compartilhada por apoiadores do senador Flávio Bolsonaro (PL) e pelo comentarista norte-americano Joey Mannarino, simpatizante de Donald Trump. A postagem de Mannarino ultrapassou 400 mil curtidas no Instagram.

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Em nota divulgada na terça-feira, 28, a Justiça Eleitoral contestou o relatório e afirmou que ele manipula dados públicos para sugerir fraude. A publicação questiona, entre outros pontos, o registro de votos depois das 17h. Análises de microdados públicos do TSE feitas por veículos como Estadão, BBC, g1 e Folha de S. Paulo chegaram a conclusões semelhantes às do órgão eleitoral.

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Dos 34.393 votos registrados após as 17h, 32.399 foram computados entre 17h e 18h, 1.981 entre 18h e 19h e 13 depois das 19h. Pesquisadores do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo (USP), disseram ao Estadão que a maior parte foi registrada até as 17h10, período em que ainda pode haver eleitores esperando na fila. A legislação garante o voto a quem estiver aguardando, e o procedimento não é inédito: no segundo turno de 2022, 31.714 pessoas votaram depois do horário previsto.

O relatório também afirma que 8,6 milhões de eleitores votaram sem identificação biométrica, classificando isso como uma vulnerabilidade. A falta de biometria, porém, não invalida o voto, pois o cadastro não é obrigatório. Se a digital não for reconhecida, o eleitor pode confirmar o ano de nascimento, assinar o caderno de votação e ter a liberação registrada pelo mesário. O TSE informou que 141,3 milhões de pessoas tinham biometria cadastrada, 89,01% do eleitorado de 158,7 milhões. Os demais 10,99%, cerca de 17,4 milhões, não tinham o cadastro. A Justiça Eleitoral acrescentou que os dados públicos não revelam em quem votaram pessoas liberadas sem reconhecimento biométrico.

Também é falsa a alegação de que os dados da votação só foram disponibilizados 72 horas depois da proclamação do resultado. Os boletins de urna foram transmitidos e processados em tempo real. Após o encerramento da votação, foram impressos e afixados nas seções, além de publicados na página Resultados do TSE. O Registro Digital do Voto e os registros de funcionamento das urnas, com horários e número de votantes, também ficaram disponíveis. A imprensa acompanhou a apuração em tempo real.

A divulgação dos resultados, iniciada às 17h, foi suspensa temporariamente porque, por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, algumas seções permaneceram abertas até as 19h. Segundo a Justiça Eleitoral, isso provocou diferenças momentâneas entre o painel nacional e os recortes territoriais. O relatório ainda chama de anormal o fato de Flávio não ter recebido votos em 106 seções e Lula em quatro, mas votação unânime não comprova fraude. Muitas dessas seções ficam em comunidades indígenas e rurais. Em 2022, 147 seções tiveram votação exclusiva para um candidato à Presidência; há registros desse tipo, ao menos, desde 2002. O Verifica e o Aos Fatos também checaram alegações do documento.