
Fibras de pitanga e cambuci reduziram a viabilidade de células de câncer colorretal em testes de laboratório, mas ainda não há evidências de benefício em pessoas. (Foto: Instagram)
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) observaram que fibras de pitanga e cambuci reduziram em até 90% a viabilidade de células de câncer colorretal em testes de laboratório. A pesquisa é coordenada pelo professor João Paulo Fabi, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, e integra um projeto do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Alimentos Funcionais (INCT FoRC). Os resultados são promissores, mas não comprovam que consumir essas frutas previna ou trate câncer em seres humanos.
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Nos experimentos, as fibras de pitanga reduziram a viabilidade das células cancerígenas entre 20% e 90%. As fibras de cambuci levaram a reduções de 20% a 60%, em comparação com células que não receberam tratamento. A equipe analisou fibras solúveis da polpa, sobretudo pectinas, substâncias naturais que dão consistência aos frutos. Enquanto as pectinas predominam no cambuci, a pitanga contém uma combinação de pectinas e hemiceluloses. Para avaliar o efeito das fibras, os pesquisadores retiraram outros componentes das frutas, como carotenoides e substâncias fenólicas, antes de expor as células cultivadas em laboratório às amostras.
As fibras foram testadas nas concentrações de 0,1%, 0,25% e 0,5%, e os efeitos foram observados após 24, 48 e 72 horas. A pitanga teve os resultados mais expressivos: nos experimentos, quanto maior a concentração das fibras e o tempo de exposição, menor a viabilidade celular. O cambuci também apresentou efeitos, mas sem a mesma relação direta entre quantidade de fibras, duração da exposição e resposta das células; a redução chegou a 60% nas condições avaliadas. Pectinas extraídas de frutas cítricas não produziram efeito semelhante, o que, segundo os resultados, sugere que a composição e a estrutura das fibras podem influenciar a atividade observada.
A próxima etapa da pesquisa coordenada por João Paulo Fabi é investigar por que as fibras diminuíram a viabilidade das células. Uma possibilidade é a indução da apoptose, processo natural de morte celular programada; outra hipótese é que as substâncias interrompam o ciclo celular e dificultem a multiplicação das células. A equipe pretende aprofundar os testes em culturas celulares e, depois, realizar estudos com animais. De acordo com o pesquisador, essa fase deverá avançar ao longo dos próximos dois a três anos.
O trabalho também vai investigar a relação entre as fibras e a microbiota intestinal, conjunto de microrganismos que vive no intestino e participa de diferentes processos do organismo. Os cientistas querem verificar como as bactérias intestinais interagem com as fibras e se diferenças de composição e solubilidade alteram a fermentação dessas substâncias. Além da pitanga e do cambuci, os planos incluem estudar a uvaia, outra fruta nativa brasileira, para ampliar o conhecimento sobre compostos naturais e possíveis usos na alimentação.
A pesquisa pode contribuir para desenvolver ingredientes alimentícios a partir da biodiversidade brasileira e estudar aplicações das fibras na indústria de alimentos. Pitanga e cambuci têm vida útil curta depois da colheita e são usados principalmente em polpas, sucos, sorvetes e outros produtos. Novas técnicas de secagem e extração poderão ampliar o aproveitamento das frutas e ajudar produtores rurais a reduzir perdas, mas essas possibilidades ainda dependem de pesquisas. Por enquanto, não é possível afirmar que comer pitanga ou cambuci combata o câncer: os experimentos ocorreram apenas em células cultivadas em laboratório, sem testes em animais ou pessoas. Além disso, foram utilizadas fibras extraídas e preparadas em concentrações específicas, diferentes do consumo habitual das frutas. Os resultados ainda não foram publicados em revista científica e precisam passar por novas etapas de investigação.








